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04.03.2004 | Pouca gente sabe, mas um curió, pequeno pássaro que pesa cerca
de 20 gramas, chega a valer milhares de dólares. Treinado, o bichinho pode
se tornar um cantor cobiçado, capaz de arrastar uma legião de admiradores e
gerar lucros para os criadores. Concursos de canto multiplicam-se por todo o
país e, em Santa Catarina, foi criado o primeiro curiódromo brasileiro. Os
pássaros mais famosos chegam até a gravar CDs. Um fã declarado do curió é o
tricampeão mundial de futebol Roberto Rivellino, que recentemente pagou US$
40 mil por um outro campeão, Cyborg, pássaro que, em nove anos de vida, já
conquistou o título brasileiro de canto por sete vezes.
Rivellino desconversa e não confirma a quantia paga pelo passarinho,
revelada pelo colunista Anselmo Góis, de “O Globo”. Afinal, não é pouco
dinheiro por um animal tão leve - R$ 5.800,00 por cada grama, cerca de 150
vezes mais do que o valor atual do grama do ouro. Mas o valor faz sentido.
Não é incomum um curió valer mais que automóvel de luxo. “Já vi gente trocar
carro novo por passarinho”, conta Raimundo Pereira, o Biloca, um aposentado
de 74 anos da mineira Itajubá, que, há mais de sete décadas, se dedica à
paixão de colecionar pássaros.
"O Cyborg tem um canto maravilhoso e é o melhor curió que eu já vi em minha
vida”, elogia o ornitólogo Aloísio Pacini Tostes, um dos mais renomados
especialistas em pássaros no Brasil. “É precioso, como um diamante de um
quilo”, exagera. Tostes, presidente da Confederação Brasileira dos Criadores
de Pássaros Nativos, explica que, entre tantos curiós existentes no País, o
pássaro mais valorizado é aquele que se diferencia pela qualidade do canto e
pela capacidade de repetir diversas notas por mais tempo, “em uma
demonstração de fibra e valentia”. Tantas virtudes são conseguidas com
muitas horas de treinamento, embora o código genético do pássaro também seja
relevante para definir um campeão.
“Adoro pássaros desde quando era muito pequeno; é uma paixão passada de pai
para filho e, hoje, não sei se conseguiria viver sem eles”, confessa
Rivellino, que, na década de 1970, quando atuava pelo Fluminense, ganhou o
apelido de “Curió das Laranjeiras”. Cyborg foi comprado no fim do ano
passado e enche de orgulho o atual dono. “É o ‘curió do século’,
hors-concours da espécie”, gaba-se. Cyborg é realmente um pássaro
diferenciado. Não apenas pelo número de títulos que já conquistou, mas por
suas qualidades. É capaz de repetir seguidamente, durante dois minutos, 31
notas do canto Praia Grande, uma espécie de padrão nacional das competições
entre curiós.
Um artista treinado como atleta
Para isso, recebe cuidados especiais e treina acompanhando gravações num CD
player. Cyborg escuta o som do disco e repete as notas para aprimorar o seu
canto. “O curió é um bicho melindroso, que não aceita ouvir o canto de
outros pássaros”, conta Rivellino. Por isso, durante os treinamentos, Cyborg
fica isolado dos passarinhos de outras espécies que habitam o apartamento do
ex-jogador, em São Paulo. “Mas ele não me dá trabalho; por ter sido criado
em cativeiro, é um curió educado”, explica o antigo craque dos gramados, que
já o exibe em campeonatos paulistas de canto, para a admiração de amigos e
concorrentes.
Aliás, uma boa oportunidade para comprar e vender pássaros são as
competições de canto espalhadas por todo o Brasil. Nos principais centros
urbanos do Sul e Sudeste, os campeonatos são realizados há mais de 50 anos.
“Um passarinho vencedor é como um jogador de futebol, que sai da roça,
treina, participa de torneios e, se for bom, passa a ser valorizado”,
compara o aposentado e colecionador de pássaros Biloca, que já chegou a ter
2 mil pássaros em sua casa, mas, atualmente, por questões financeiras,
diminuiu este número para duas centenas. “Sou apenas um apaixonado, não
compro e não vendo e, se for preciso, deixo de comer para comprar comida
para os meus passarinhos.”
Os torneios de canto mais importantes do Brasil são disputados em cidades
como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Recife e São José dos Campos, que
reúnem “gente com muito dinheiro”, como diz Biloca. Uns compram pelo simples
prazer de ter um pássaro campeão; outros, por questões comerciais. No
Brasil, existem mais de 100 tipos de cantos catalogados. Além do Praia
Grande, há o Paracambi, o Vivi Tetéu, o Florianópolis e o Paranaguá. O
treinamento mais comum consiste em deixar um filhote de curió em um quarto
fechado ao som de CDs com cantos gravados. Uma refeição adequada e passeios
freqüentes com o bichinho pelas ruas para que ele não se assuste com a
movimentação das pessoas são pontos também importantes no treinamento.
“Entre seis meses e um ano, é possível treinar muito bem um curió
praticamente selvagem”, explica Biloca.
Embora muita gente critique a manutenção dos pássaros em gaiolas ou
viveiros, Biloca acredita que esta é a melhor maneira de preservar a espécie
contra os caçadores e os predadores naturais. Aloísio Tostes concorda. Ele
condena, sim, a captura de aves selvagens na natureza para a simples
comercialização. “Hoje, há uma preocupação muito grande no desenvolvimento
de técnicas em genética que permitam o nascimento de exemplares de alta
linhagem”, afirma Tostes. Comprar pássaros de criadores idôneos, segundo
ele, também evita o crescimento do mercado ilegal no Brasil e do tráfico
internacional.
Os especialistas estimam que mais de 8 milhões de brasileiros têm pássaros
em suas casas, muitos apenas como um hobby. Deste total, apenas cerca de 100
mil estão regularizados, com cadastro no Ibama e documentos que comprovam a
origem do animal. Atualmente, o curió é o pássaro brasileiro mais cobiçado
por admiradores e criadores. Há mercado para curiós nos Estados Unidos, na
Europa, na China e no Japão, mas a Confederação Brasileira dos Criadores de
Pássaros Nativos não tem números oficiais das exportações. “Também é grande
a procura por outros pássaros - como o bicudo, o canário da terra e o
coleirinha”, destaca o presidente da Associação. São pássaros que também
participam de competições.
O curió não é uma espécie em extinção e, portanto, sua fama não está em alta
por ser uma raridade. Os compradores dispostos a pagar milhares de dólares
por um único bichinho estão de olho na qualidade e diversidade de seu canto,
ao contrário de muitos passarinhos que sempre emitem os mesmos sons.
Rivellino, por exemplo, não pensa em criar curiós nem em fazer negócios com
eles. O ex-jogador de futebol, que já encantou platéias de todo o mundo com
o seu talento, gosta mesmo é de ficar na cama, deitado, apreciando o talento
de Cyborg, o seu xodó. “Um amigo meu chegou até a gravar um CD apenas com
apresentações do Cyborg. Meu passarinho é um verdadeiro artista.”
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